Relato de parto – uma história sobre apoio

Não, talvez eu ainda não esteja preparada psicologicamente para falar disso ainda, mas decidi que chegou a hora.

Logo após o parto recebi mensagens pedindo o relato, perguntando como foi. Hoje, quase 5 meses depois decidi escrever.

Me preparei durante a gestação, me despi de todos os preconceitos com o parto normal, troquei de médico muitas vezes, até encontrar uma com a qual me identificasse e que fizesse o parto pelo convênio médico.

Procurei doulas, falei com muitas, com as melhores. Mas a verba não ia dar. Eu tinha que escolher. Pagar médico e doula, ou guardar o valor para todos os custos que uma criança traz, escolhi a segunda opção. Tantas crianças já vieram ao mundo, em milhares de partos normais, por que eu não conseguiria sem essa assistência ?

Todos as ultrassom a médica, uma querida, que fez as ultrassom da primeira festanças também, dizia: uau, DPP (data provável do parto) 31/12/2017, Réveillon, 40 semanas exatas.

“Ah, mas não”, pensava eu

“Ela vai vir antes. Ou depois”

“Não é possível que vá nascer em pleno Réveillon”

Todavia, escolhi o hospital pensando na festa da virada, longe da muvuca da Av. Paulista, apesar da minha médica recomendar mais esse que nem sequer visitei.

Gostei do hospital que visitei, decidi por ele. Hospital conceituado, humanizado, gabaritado, todos os “ado” que quiserem pensar.

31/12/2017 – hora do almoço

Fiz almoço para o Murilo, afinal, tinha uma ceia para preparar e não estava afim de comer. Sabe como é, final de gravidez, estômago do tamanho de uma ervilha, todo apertadinho. Fiz arroz, fiz farofa, maionese, coloquei o tender no forno umas 15:30 e reclamei para o marido de dor nas costas. Vou tomar um banho e deitar.

Sem banho, dor nas costas mesmo, deitei.

“Passou a dor amor!! Vou terminar as coisas, limpar a cozinha”, só vou fazer xixi antes.

16:40: AMOR, não para de sair xixi ! 😮

A bolsa rompeu !!!! Liga para dra. Vera

“Vou pro chuveiro que não para de escorrer líquido. Aaaai minhas costas” Era mesmo contração.

Dra. Vera indica ir para o hospital já que a bolsa rompeu, vai cronometrando o tempo.

Sério! 4/4 minutos, sem parar, 30-40 segundos de dor, dali 4 minutos, outra.

Estávamos sozinhos em casa, eu, marido e Murilo.

Vamos com Murilo mesmo para o hospital.

Avisa grupo da família, quem ficará com Murilo ?

Chama o padrinho

Peguei uma toalha de banho e fui de saia l, sentada no banco da frente, Murilo na cadeirinha e papai dirigindo.

A cada 4 minutos eu me envergava feito uma vírgula no banco da frente.

A tal dor, visceral, a dor que eu queria tanto conhecer, prazer, Juliana.

Estava suportando bem, chegamos ao hospital as 18:15 (saímos de casa 17:50), até que não estava trânsito para um último domingo do ano, último dia pra ser mais exata.

Chegamos ao hospital, desembarquei sozinha e o Sr segurança me ofereceu a cadeira de rodas.

Como assim não tem alguém pra levar o carro pro estacionamento ?

Não, não tem. Papai foi com Murilo e fiquei ali, sozinha na recepção, na cadeira de rodas, com dor, fazendo a tal ficha.

“Moço, ele não pode fazer a ficha depois ? Estou com dor. Aaaai”

Vendo isso, ele chamou a enfermeira que veio e me levou para sala de pré parto.

Uma sra experiente, um amor, me orientou tirar a roupa e colocar a camisola e deitar na cama para fazer o cardiotoco. Batimentos da Lalá: 142 bpm, ok

Chega a médica, chará minha. Pediu licença e perguntou quanto tempo de contração e se poderia realizar o exame de toque. 2 cm de dilatação. 2 horas de contração, tudo certo.

Chega o papai, cadê o Murilo ?

Tá lá fora, sozinho.

Como assim ?

Sim, ficou com a enfermeira (desconhecida)

Aí começou meu nervoso. Como eu ficaria ali em trabalho de parto para ter minha filha com meu outro filho com alguém que nunca viu ??

Padrinho a caminho, trânsito, afinal, ano novo.

Daniel vai lá fora, fica com ele. Ele não pode ficar sozinho.

Enfermeira faz massagem nas minhas costas, conta o tempo, um amor.

Mas ela sai, precisa sair.

Sozinha…

Daniel volta.

“Vai ficar com Murilo, ele não pode ficar sozinho”

“Amor, tá doendo!! Fica comigo”

Me senti sozinha, me senti frágil

A culpa não era dele, nem do Murilo, éramos só nós.

Minha médica chega. Demorou nada, 15 min, mas aquela eternidade né

Toque, 3 cm.

E aquela sala, toda preparada, cromoterapia, banheira e afins ?! Que horas ? Ah, só com 6 cm de dilatação.

Sozinha…

A falta de apoio estava doendo mais que a dor.

Me levaram para um quarto com chuveiro, eu só queria ficar deitada, mas também queira ir para o chuveiro. Duvida. Vamos ver se lá dói menos.

Daniel entra no quarto. Murilo lá fora, bexigas feitas de luva, mas, desconhecidos. Preocupação de mãe. Sabem como é né

Dor de 2 em 2 minutos, já eram 19:30. Médica, enfermeiras, entravam e saíam do quarto, e eu no chuveiro, inclinada para frente, apertei o braço de muitas, depois pedi desculpa à todas, gritei também, muito. Quis bater quando uma delas falou: “não grita assim, vai assustar seu filho, ele está lá fora”

Ah, não diga ?!! Não sabia que ele tava lá fora !!! (Pensei)

Onde estava humanização ? Comecei me arrepender da escolha que fiz do local. Dia 31/12, ela não estava muito feliz em acompanhar um parto normal quase as 20:00. Trabalho em hospital, sei bem como é a ceia de ano novo, é até gostoso, para que não é paciente.

Determinada hora que fiquei sozinha novamente gritei o nome do marido, alto, muito alto, como se ele tivesse a quilômetros de mim. Ele entrou, assustado, apertei o braço dele: “Não estou aguentando”, “não quero mais”, chama a médica, “vou fazer cesárea”, chorando muito.

A dor nos faz sair do prumo, não sabemos mais o que é melhor ou pior. É nessa hora que o apoio é fundamental, nessa hora que mais precisamos de incentivo, ali, entre a cruz e a espada, eu tive que decidir.

“Tem certeza?”, perguntou minha médica

“Sim” , (chorando). Não podia deixar meu filho lá fora.

Padrinho a caminho. Subindo a serra, o mais rápido que pôde. Gratidão.

Sentei na cadeira de rodas e me levaram ao centro cirúrgico, bem próximo dali.

Tinha que sentar na mesa cirúrgica, fria (leia-se gelada) e DURA, de metal. Eu apertei o braço de mais algumas pessoas.

Minha obstetra disse que tínhamos que aguardar a anestesista. Xinguei, gritei. “Cadê essa anestesista?”

Contração de 2/2 minutos, 20 segundos de dor.

Vontade de fazer coco Dra Vera! Elas se entreolham e ela pede para fazer toque. Deitar naquela mesa dura com dor foi uma das piores coisas. 5 cm dilatação. Chega a anestesista.

Tinha que sentar e inclinar o corpo para frente. E NÃO ME MEXER. Quase impossível, mas conseguimos.

Deitei, acabou a dor. Anestesiada.

(Perguntei depois, no retorno ao consultório, no pós parto, que Lavínia provavelmente nasceria antes da meia noite caso eu aguardasse o parto, que as contrações estavam evoluindo bem, a bolsa rompeu em casa, por isso foi tão rápido)

:/

Chegou o papai, sentou ao meu lado.

Eu choro de frustração, peço desculpas de não ter conseguido. Cadê o Murilo ?

Está lá fora.

Alguns minutos…poucos

Lavínia vai nascer, 20:09. Choro alto, linda, toda rosada.

Plano de parto ? Não fiz. Hospital humanizado, vão cumprir o regulamento que li, que está no site. Amamentar logo que nasce.

Trouxeram-na ao meu colo depois de limpa-la, braços soltos (diferente do parto anterior), ótimo, coloca no peito?!

“Não pode”

Como não ?

Na correria de sair de casa, o cartão pre natal não estava na bolsa. Ah!!!

Sorologias, não pode amamentar sem as sorologias.

Frustração 2

Daniel sai da sala cirúrgica e acompanha a bebê. Fiquei sabendo depois que Murilo já estava com padrinho nessa hora.

Lavínia para o berçário.

Mas e o alojamento conjunto ? Pensei eu ainda na mesa.

Fui para recuperação anestésica, era umas 21:00, não me recordo bem.

Ali fiquei até 22:50 aguardando o tal anestesista, que era outro, vir me dar alta. A técnica de enfermagem muito solicita, educada e gentil foi procurá-lo 2x. Na segunda ela voltou com o tal papel assinado por ele permitindo que eu fosse para o quarto.

Achei que ia passar a virada do ano sozinha também.

23:10 chego no quarto. Murilo, papai e padrinho.

“Cadê Lavínia?”

Ainda está no berçário, mas agora aqui no andar.

“Tragam ela logo !!! Já faz 3 horas que ela nasceu e está longe de mim”

Vai passar a virada longe também?

Lavínia chegou, 23:40, minha menina!!!

Alegria te-la nos braços, pedi desculpas por não ter suportado. Já estava arrependida. Me senti fraca. Como me senti mal.

Assistimos os 5 os fogos de todo canto do mundo, pela TV do quarto.

Exaustos todos, Murilo foi pra nossa casa com dindo. Para nossa casa. Ele dormiu lá com Murilo por 2 noites, na terceira Murilo dormiu conosco no hospital.

Muitas coisas aconteceram nesses dias no hospital, mas o relato é do parto. Tá aí. Consegui. Não foi fácil escrever. Termino chorando.

Mesmo depois de toda dor, eu faria novamente. E dessa vez, pagaria alguém para dar o tão importante apoio, físico e psicológico. Faz falta. É preciso. Me arrependo de ter desistido, mas, a dor foi mais forte do que eu, a dor foi mais forte que o apoio.

Dia 03/01 fomos para casa! Mãe de dois.

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